Tenet. A palavra que o Protagonista (John David Washington) tem para salvar o mundo (???) e também a palavra que pôs toda a gente a pesquisar a Wikipédia para perceber o que quer dizer. Para além de outros conceitos extravagantes, acho que em certa parte foi por aqui que Christopher Nolan se baseou para fazer este filme. Sendo que a associação de letras funciona para trás e para a frente, não tenho grandes dúvidas que esta foi a ideia de base. Para além dos nomes mencionados no filme ainda há também uma referência a Pompeia, que é uma das mais antigas referências a este palíndromo.
Para além da inspiração que parece óbvia, tudo o resto no filme não é. Pior. Nada é óbvio e nada funciona. Nunca tinha visto um filme do Nolan que não gostasse. Até este ponto. Pronto. Já o disse. Não gostei nada disto. É uma amálgama de conceitos e referências científicas extravagantes para mascarar o que realmente é: um filme do James Bond. Já são muitas as evidências. Só não percebo é porque é que o Nolan não pega no Tom Hardy e faz de facto um filme do James Bond. Ou três. Tenho a certeza que seriam os melhores “James Bond” de sempre. Mas adiante…
Poderia estar a aqui a pormenorizar as falhas argumentativas nos paradoxos temporais. Se os gajos incógnitos do futuro criam a tal máquina para regredir o tempo e salvar o planeta, porquê é que escolhem o mau da fita para o destruir? E se o destruírem no passado (em vez de o corrigirem) eles próprios nem sequer vão existir, o que por sua vez resulta num proveito nulo para as partes envolvidas. Qual é a lógica disto? É apenas uma vingança do futuro pelo que estamos a fazer ao planeta no presente? Não se sabe e principalmente não se percebe a lógica. Mas também poderia questionar o porquê de algumas personagens terem de usar a máscara para regredir no tempo e outras não, ou como é que um personagem (sem explicação nenhuma) alterna na direção temporal a meio da acção final. Vou apenas limitar-me à explicação da cientista que logo no início tenta explicar a um confuso Protagonista o funcionamento da inversão de tempo: “Não tentes entender”.
Esta frase estragou-me logo o filme. Não gostei nada que o filme me passasse um atestado de minoridade mental. Como assim, não tentes entender? Porquê? Sou burro para não conseguir perceber? essa frase foi de uma arrogância enorme. Toda a base do argumento se baseia nessa teoria, mas eu só tenho que ver e “não posso sequer tentar entender”. É simplesmente arrogância.
Só tenho a concluir que, tal como tem acontecido com outros realizadores geniais, Nolan perdeu-se no labirinto da sua própria genialidade e deixou toda gente cá fora. Dá-me a impressão que Nolan já não consegue fazer um filme “normal“, sem ter que confundir a audiência com complicadíssimos conceitos temporais ou fenómenos científicos extravagantes. Se formos a ver bem, Tenet é um filme de acção e espionagem, mas a lógica de fundo é a inversão de tempo. Porquê? Serve para para quê este pormenor? Tecnicamente, não serve para nada. A mesma história poderia ser totalmente linear. O que parece é que Nolan anda mortinho por fazer um filme James Bond, mas basicamente não quer fazer um “simples” filme de acção. Cada um faz as suas aproximações e está no seu direito. Mas eu também estou no meu direito de não ter de andar com blocos de notas e post-its para ir tirando apontamentos, ver o flime três ou quatro vezes para perceber as ligações e o andamento da história. Na cabeça de Nolan e da restante equipa, Tenet deve fazer todo o sentido porque estão de guião na mão a acompanhar as ligações das cenas. Ou melhor, dos filmes, porque basicamente, Tenet são dois filmes (um que anda com o argumento para a frente e outro que anda para trás). Para uma pessoa que está no cinema a acompanhar a historia é simplesmente uma confusão terrível. E se se juntar a isto uma banda sonora que muitas vezes “abafa” a acção e os diálogos, tudo ainda se torna mais confuso. Tenet foi um dos filmes mais pretensiosos que já vi nos últimos tempo. Hiper-complicado só porque sim, prepotente e vago nas explicações e ainda por cima, no cômputo final, não dá uma sensação de se ter visto um filme memorável. Apenas uma confusão argumentativa, recheada de grandes momentos de acção, mas sem grande chama. Não percebi mesmo este tipo de aproximação. Chateou-me. Acabei o filme com um mau feeling…
Pronto! Já tirei tudo cá para fora! Obviamente, nem tudo é mau. As cenas de acção são tipicamente Nolan. Espetaculares, grandiosas e realistas. A estilização da acção, das personagens (e já agora de tudo resto) é fantástica. A fotografia é, como sempre, irrepreensível. O ritmo é fantástico e sempre acelerado. Os actores (Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Kenneth Branagh) são muito bons e estão muito bem dirigidos. Aquelas cenas de acções em reverso (em especial a última) são absolutamente soberbas e dou por mim a pensar: como é que é possível filmar isto?
Não só é o meu realizador favorito da atualidade, como também considero Nolan como um dos melhores realizadores de sempre. E nota-se que ele percebe muito bem isso. Mas parece que isso começa a afectá-lo. Tal como o filme, parece forçado a não fazer coisas “normais”. Desta vez não funcionou. Percebo toda lógica do azul para a frente e do vermelho para trás, a inversão do tempo e os desenlaces, mas a história e a consistência perdem-se no meio deste fogo de artificio todo, que parece que lá esta apenas para impressionar pelo facto do quão inteligente é. (Porra, que até a própria crítica ao filme está a ficar confusa.) Tenet acaba por seguir bem este lógica temporal, porque tem dois lados opostos. Um lado muito positivo que segue em frente e um lado ostensivamente pretensioso que o arrasta para trás. Depois de tanta expectativa, foi bastante frustrante. Eu sabia que um dia ia ver um “Nolan” que não ia gostar. Pronto. Já aconteceu.
Se este era o filme que, como li, ia “salvar as salas de cinema”, não auguro nada de bom… ●●●○○
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