Queres saber o que vai acontecer no futuro? O que vai acontecer daqui a um minuto? Um dia? Um ano? Um século? São perguntas complicadas… De certa forma toda a gente consegue ver para o futuro. Não é assim tão difícil. O que é difícil é ver muito longe no futuro. O exemplo que eu costumo dar a mim próprio é o de atirar uma pedra a um lago. Se uma pessoa atirar a pedra para o lago sabe o que vai acontecer: a pedra sai da mão a grande velocidade e vai inevitavelmente cair na água e afundar-se no leito. Não é assim tão difícil perceber o que vai acontecer com a pedra. O que é verdadeiramente difícil (se não mesmo impossível) é perceber o que vai acontecer com a água. O efeito que vai fazer, o impacto que vai ter em todo o ecossistema e eventualmente a ligação com tudo o resto que existe numa aparentemente interminável rede de ligações até chegar novamente aos músculos e nervos do meu braço… Bem… acho que estou a divagar… novamente…
Se há pessoas que só conseguem ver a pedra a cair nos próximos momentos, há no entanto pessoas que conseguem imaginar toda a continuidade da acção. H. G. Wells era uma dessas pessoas. Ele conseguia pegar numa acção minúscula e extrapolar para outras acções, estendê-las no tempo e assim efectivamente conseguir ter um vislumbre do futuro. E assim se chega a Things to Come, um clássico da ficção científica, com ideias muita à frente do seu tempo. Logo à partida, uma guerra em 1940 (praticamente o início da II Guerra Mundial), mas depois que começa a desenrolar-se noutros anos (1966 e 2036) entra em campos por vezes quase “visionários” ou “proféticos” como a massificação dos meios aéreos (aviões e helicópteros), os ecrãs de TV finos (como LCD´s” e as viagens espaciais… Para quem estava no longínquo ano de 1936 a “olhar para a frente”, acho que é uma previsão absolutamente fantástica.
Infelizmente é aqui que termina o lado positivo deste Things to Come. Pelo que sei, Wells acompanhou de perto a “construção” do filme e uma das coisas que costumo ler é de ele não queria um filme “tolo” como Metropolis. Não sei se foi por imposição ou por simples coincidência mas acabou por ver o seu desejo realizado. Infelizmente. Metropolis de Fritz Lang é o portento intemporal que é, e Things to Come de William Cameron Menzies ficou atolhado pelo pó do tempo. E em certa parte é justo. Olhando para a obra do ponto de vista do filme, acaba por ser um pouco fraco. A realização é muito “plana”, muito “fixa”. Os actores (Raymond Massey, Edward Chapman, Ralph Richardson) ficam um pouco “pendurados” nas personagens e na sua própria teatralidade. E o próprio desenrolar da história (que abarca décadas inteiras, a quase erradicação da Humanidade por uma doença pestilenta e um novo começo) é irregular e inconsistente. E ainda que tenha obviamente a desculpa da marca do “tempo” nas questões técnicas e efeitos especiais, já vi melhor em filmes da mesma época, apesar de o design de produção e as “maquetes” serem muito boas. Things to Come não está bem feito e acaba por não ser um filme memorável. A maior prova disso é o facto curioso de ser um daqueles filmes “clássicos” que acabaram por cair em domínio público. Constatação triste mas verdadeira.
Para lá das previsões e do futurismo, nota-se que história é muito à frente do seu tempo (no final é mesmo uma revolução do povo contra os progressos tecnológicos que ironicamente fizeram a Humanidade recomeçar quase do zero e levá-la ao Espaço) e é o que mais se destaca e lhe dá valor intemporal. Pena que tudo o resto tenha ficado de certa forma “curto”. Ainda assim, é uma peça histórica e uma raridade de outros tempos que merece ser vista com atenção. ●●●○○

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