Drive (2011) é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Em grande parte, porque é algo totalmente novo. Parece um policial negro dos anos 60 (tipo Bullit), feito à maneira dos anos 80 (tipo To Live and Die in LA), mas com uma roupagem do século XXI (tipo… Drive). Pode parecer uma mistura esquisita, mas acaba por resultar bem. Muito bem.
Apesar de ter ouvido uns “zun-zuns” sobre o filme, não fazia a mínima ideia do que se tratava. Costumo evitar saber muito sobre os filmes em pré-produção para não perderem o efeito-surpresa e/ou para não gerarem muita expectativa. Neste caso, resultou perfeitamente. Houve momentos em que fiquei literalmente de boca aberta e a única coisa que conseguia dizer era: “isto é excelente!“. Uma raridade, hoje em dia.
Não conhecia muito bem o trabalho de Ryan Gosling e também não conhecia Nicolas W. Refn. Lembro-me de há uns anos ter visto um pequeno, mas brilhante filme chamado Bronson, mas na altura não fixei o nome do realizador. Como não há coincidências, o nome comum é… Nicolas W. Refn. Bem, já não me esqueço mais.
Brilhante e singular realização, excelente banda sonora alternativa, grandes momentos de cinema, belíssima fotografia e um conjunto de actores de 5 estrelas. Albert Brooks, como uma espécie de mafioso freak coleccionador de facas é uma maravilha; Ron Perlman que… é o Ron Perlman! Basta estar lá e nem precisa de abrir a boca. Mas especialmente Ryan Gosling, que já tinha visto por aí em alguns filmes, e que sempre pensei que era mais um daqueles actores “bonitos” e pré-formatados de Hollywood. Grande erro. Ryan Gosling é excepcional.
A história não é nenhuma novidade, mas acaba por ser envolvente. A meio do filme, até parece que vai descambar porque começa a dispersar muito, mas depois acaba por manter a coerência.
Um solitário condutor profissional (que nunca sabemos o nome) ganha a vida como duplo de cinema, mas faz uns serviços extra menos convencionais como condutor de fuga em assaltos. Ele é o homem sem emoções, metódico, hiper-calmo, quase a roçar o psicótico que resolve as situações mais stressantes sem nunca hesitar. E sem nunca largar o palito dos dentes…
Tudo se complica quando se envolve com uma rapariga (a vizinha do lado, que tem um filho pequeno) e decide ajudá-la a ultrapassar algumas dificuldades. À boa maneira dos primeiros filmes dos irmãos Cohen, tudo se vai complicando cada vez mais e tudo corre da pior maneira possível. Especialmente, quando o marido da rapariga sai da prisão e volta para casa, arrastando a família para um mundo de violência e crime que o persegue. E é um mundo mesmo muito violento, que acaba por culminar num âmbiguo final dramático.
Quando vi o Bronson, notei muitas influências de Kubrick, especialmente da Laranja Mecânica. Por mim, tudo bem. Se é para “roubar“, ao menos que se “roube” dos melhores. Em Drive, as influências continuam lá (parecem ter vindo do 2001) e manifestam-se em loooooongos e penooooososo takes. Não é que estrague o filme ou que o prejudique (acho que é até o que o diferencia dos restantes filmes), mas sinceramente, parece-me um pouco exagerado. É o único ponto menos positivo que posso apontar. Um pouco menos de lentidão (a personagem de Gosling já carrega toda a tensão do mundo só no olhar) e um pouco mais daquela sensação de adrelina quando se conduz um carro a alta velocidade e era um filme sem falhas. Tenho a certeza que com o tempo se irá afirmar como uma referência e será muitas vezes copiado. Quase, quase perfeito. ●●●●○