Costuma-se dizer que chegar ao topo não é muito difícil. Difícil é manter-se lá. Os irmãos Wachowski são a prova disso. Depois de Bound e Matrix (ou melhor 1,5 Matrix‘s, porque o segundo derrapa e o terceiro estatela-se ao comprido), os irmãos têm tido muita dificuldade em fazer um filme em condições e que chegue ao nível dos primeiros. Eles tentam, mas regularmente falham. Cloud Atlas levantou muitas expectativas e sinceramente, quando vi as primeiras imagens, pensei que iam voltar à genialidade do início. Enganei-me. O filme parece mais um tour de force (para os actores e para a mesa de montagem) que outra coisa. São cortes e recortes constantes que partiram o filme em bocadinhos que por vezes não parecem ligar bem. Se não soubesse, diria que foram várias pessoas a fazer o filme. A realidade é que Cloud Atlas teve mesmo as mãos de três realizadores – os irmãos Wachowski e Tom Tykwer (dono de excelentes filmes como Heaven e especialmente Perfume: The Story of a Murderer) – e de certa forma isso nota-se. Há uma inconsistência algures que quase passa despercebida, mas há.
Notam-se muitas homenagens ao género (sempre menosprezado) da ficção científica. Umas mais escondidas como Fahrenheit 451 e outras mais à escâncara como o look futurista Matrix e a cena Soylent Green, mas em versão coreana. É óbvio demais, não? Podia ser um novo clássico da ficção científica, mas está demasiado embrulhado e confuso para isso. Acho que Cloud Atlas perde o rumo precisamente porque é grande demais em tudo. É exemplo típico de que por vezes mais é menos…
Cloud Atlas tem um daqueles castings que parece uma parada de Hollywood (Hugh Grant, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Halle Berry e claro, a superestrela Tom Hanks), mas aposto que nenhum deles meterá o nome do filme na primeira linha do cartão de visita. Todos eles têm filmes melhores para mostrar.
Cloud Atlas não é uma chiclete. É uma fábula moralista sobre a repercussão das acções ao longo do tempo e como a ironia do destino está sempre presente, em que um evento mau pode ter implicações positivas no futuro. Dá também a entender que algo de nós – uma espécie de alma – transita, atravessando as linhas do tempo. É um filme complexo, se calhar, complexo demais. A primeira vez que ouvi falar do filme foi precisamente por ser uma história tão interligada (que vai do século XIX até ao século XXIII e mais além), com tantas linhas temporais simultâneas que era impossível de adaptar para cinema. A evidência está à vista. Cloud Atlas parece ter sido feito com a intenção de ser uma (nova) afirmação que os Wachowski conseguem voltar a fazer filmes épicos. E não há dúvida que é épico… em trabalho de montagem e duração. Mas chega aos calcanhares de Matrix ou Bound? Acho que ninguém responderá afirmativamente. As cenas memoráveis estão praticamente todas no trailer… Verdadeiramente boa é a banda sonora original, e de certa forma une mais o filme em termos temporais, do que a própria narrativa. O tema principal que dá o título ao filme é mesmo muito bom.
Devido ao início de carreira espectacular, dou sempre o benefício da dúvida aos Wachowski. Mas desta vez – mais uma vez – sinceramente, acho que falharam. O melhor de Cloud Atlas é a prestação dos actores – que são indiscutivelmente bons -, alguns bons pormenores de realização à Wachowski e a parte de efeitos especiais que é sem falhas (como são muitos dos filmes chiclete da actualidade). Mas o que se destaca como expecionalmente bom é mesmo a complexidade técnica da montagem e a banda sonora.
Por ser muito complexo (ou confuso?), Cloud Atlas é um filme que já se me varreu (quase) completamente da memória. Isso nunca é bom. Se calhar que terei de o ver outra vez para o perceber melhor. Para um fã incondicional da ficção científica, que espera sempre o novo grande filme de referência, infelizmente, Cloud Atlas é “apenas” pouco melhor que mediano. É nitidamente um filme que ficou refém das altas expectativas que criou à sua volta. Mas pelo lado positivo, parece-me que é daqueles filmes incompreendidos “à primeira” e que ficarão melhores com o passar do tempo. ●●●○○

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