Ainda hoje não entendi muito bem como toda esta história contaminou o mundo. Acho que foi uma espécie de estranho acordar (violento) para a realidade. A ideia pré-concebida que uma pessoa tem da patinagem artística (sendo que “uma pessoa”, sou eu…) é quase a mesma do bailado clássico: apenas meninas lindíssimas com um Q.I. do tamanho do Einstein participam nestas provas, e para além da beleza e inteligência quase sobre-humana, ainda suplantam os restantes seres humanos vulgares com uma incrível aptidão para um impossível equilíbrio, força e destreza física. Bem, Tonya Harding é exactamente o oposto disto tudo: é oriunda de um meio pobre, mergulhada com uma vidinha de merda com agressões e violência constante à mistura… Se bem que em abono da verdade, ela possuia um dom que era o da patinagem artística, até porque a determinado ponto do carreira foi provavelmente a melhor patinadora do mundo… É quase uma vida de rockstar decadente a imiscuir-se no elitista meio da patinagem artística de alto rendimento. Nunca iria funcionar bem, e claro está, não funcionou. Claramente posta de parte pelo resto da classe desportiva, com a vida feita num frangalho e com a agravante de estar rodeado por uma maioria de personagens absolutamente tóxicas, esta história só podia acabar mal.
Acho que foi um pouco por causa disto tudo que no princípio dos anos 90, a rivalidade Tonya Harding/Nancy Kerrigan acabou por chegar aos olhos e ouvidos de todo o mundo. Foi algo tão dispare, estranho e inesperado que acabou por chamar a atenção de toda a gente. Foi como se os irmãos Coen estivessem a “dirigir” a realidade… É talvez a característica mais marcante dos anos 90 e a razão porque muita gente não gosta particularmente desta década: é um acordar pessimista (ou realista?…) para a realidade negra em contraposto com o exagero colorido e despreocupado dos 80’s. E logo a seguir ainda apareceu a cena do “simpático” OJ Simpson… Dá que pensar…
I, Tonya é rodado em jeito de documentário com os intervenientes a comentarem abertamente as situações mirabolantes que nos vão sendo apresentadas, além de que há muitas quebras da “4.ª parede”, pormenor que gosto (quase) sempre. Vai oscilando entre um drama familiar de violência doméstica e o documentário de prestação desportiva, aqui e ali pontilhado por uma comédia muito inteligente devido às situações hilariantes em que Harding se vai metendo, mas principalmente devido aos comentários cáusticos e impróprios da mãe, que é absolutamente psicótica.
Enormes destaques para Allison Janney como a mãe irascível e, obviamente, Margot Robbie como uma perfeitamente imperfeita Tonya Harding. Sebastian Stan e Paul Walter Hauser são irritantes, mas no bom sentido. Acho que não há ninguém no casting que falhe. É simplesmente um conjunto de actores impecável e exemplarmente bem dirigidos por Craig Gillespie que assina também uma realização imaculada. Excelente. Nada a apontar.
Mesmo não conhecendo a fundo os contornos, lembro-me bem desta história esquisita. Até ver este I, Tonya, tinha a ideia já longínqua que ela tinha mesmo tentado sabotar a prestação da colega de profissão. Agora já não tenho tantas certezas. Este filme parece quase um limpeza dessas ideias que ficaram e gera bastante ambiguidade e dúvida. A ser tudo verdade (dentro da dramatização) Tonya Harding merecia ter um filme assim. Uma vida assim tão preenchida, rocambolesca e trágica merece sempre um bom filme. E I, Tonya é um filme muito bom. A sério. Muito bem feito. Para ver com atenção. ●●●●○