Para comentar decentemente um filme como Edward Scissorhands, eu deveria ter aqui a tocar a música do Danny Elfman. Como não é o caso, a única coisa que posso dizer é que gosto mesmo muito este filme. Gosto de tudo sem excepção. Gosto do estilo, da história, da música, da inocência, do drama, da fantasia… de tudo. Não tenho uma única coisa a apontar a Edward Scissorhands. É uma moderna alegoria perfeita. É a magia do cinema e das histórias na sua forma mais simples, mas que no entanto toca nos pensamentos filosóficos mais profundos da mente humana. Tem metáforas potentes. Basta pensar que Edward, para além do look infantil com o cabelo do Robert Smith, é para todos os efeitos um ser imortal. Incompleto, mas imortal. Na realidade, para além dos cenários bonitos da suburbia americana, Edward Scissorhands é uma visão sobre a sociedade actual, a partir do ponto de vista de um ser imortal e solitário que quer misturar-se e ser uma personagem normal como todos nós. Poderia estar aqui um dia inteiro a aprofundar os grandes significados e pensamentos que me ocorrem sempre que me lembro deste filme, mas não me apetece. Para isso é que inventaram a internet. Há milhões de sites que misturam as ilações da história de Edward Scissorhands com os grandes temas filosóficos. Para mim, é mais um filme “inocente” que um filme filosófico, apesar de lhe reconhecer a mesma qualidade. Tem uma qualidade inerente, tão infantil, que me enche o coração e me deixa melancólico. É um filme que mostra as qualidades e defeitos da sociedade humana, visto por uma personagem muito especial (nitidamente é a visão do Tim Burton sobre o mundo), mas que tem uma esperança final que tudo acabe bem. É um foco de luz na escuridão. É a viagem de uma alma humana pelos ruas da sociedade. Bem, acho que estou a divagar novamente…
A grande fatia do sucesso de Edward Scissorhands tem de ser atribuída ao Tim Burton. Não só pela realização que busca inspiração nos grandes filmes clássicos iniciais do terror e suspense, mas também na estética e, lá está, na inocência original desses filmes. Se calhar o termo inocência nem é o melhor termo, o melhor seria ingenuidade… ou ainda melhor, pureza. Pureza não está ligado directamente a conceitos como bom ou mau, é mais um conceito tipo Frankenstein quando ele atira a miúda para o lago. Há danos, claro que há danos, mas não são fruto da maldade. Os filmes iniciais de Tim Burton, e este em particular, tem muita dessa qualidade. Burton já tinha consolidado uma carreira e uma filmografia “diferente” com Beetlejuice e Batman, mas com este filme estranho de um jovem imortal mas incompleto, com tesouras em vez de mãos, ele conseguiu criar um novo tipo de cinema e estilo: o filme “Tim Burton”.
Não consigo ver mais ninguém no papel de Edward Scissorhands para além de Johnny Depp. É mais um daqueles casos em que um actor nasceu para um papel. Winona Ryder no pico das performances, Dianne Wiest na perfeição e tantos outros como O-Lan Jones, Alan Arkin, Anthony Michael Hall ou Kathy Baker, todos impecáveis. Obviamente, tenho que fazer um destaque muito especial para o Vincent Price que é uma das peças chave do filme, mesmo que só apareça por breves instantes. Logo à partida por ser uma lenda do cinema. E não só, porque aquela voz fantasticamente gutural do Thriller do Maichel Jackson é dele. É um actor com mais de 200 filmes no currículo e que faz parte do meu imaginário através dos filmes de terror antigos. É um dos verdadeiros mestres do terror e uma figura já mitológica da história do cinema. Acresce dizer que este foi o último filme em que participou, e para completar a mitologia, a última cena em que aparece num filme, é a da sua própria morte. Lendário.
Tim Burton criou aqui uma simbiose estranha que ainda funciona hoje em dia; misturou com sucesso a negra visão gótica, mas inocente dos antigos filmes de terror como uma inovadora estética, às vezes quase em tom pastel. Mas isso não se passou apenas do campo visual. Esta lógica manteve-se em todos os aspectos e o resultado foram histórias totalmente originais. Edward Scissorhands faz parte do meu imaginário e está arquivado no mesmo sítio dos grandes histórias clássicas tipo Alice no País das Maravilhas… (acho que não é coincidência que Burton tenha mais tarde adaptado a história para cinema…) Que originalidade. Que novidade. Que coisa tão diferente. Não tenho muito mais adjectivos. Edward Scissorhands entrou directa e imediatamente no lote de filmes clássicos e intemporais porque é um versão moderna das grandes fábulas da humanidade. Essencial. Perfeito. Perfeitamente intemporal. Um dos meus filmes preferidos de sempre. ●●●●● + ●

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