Nos anos 90, os estúdios arriscavam tudo por um bom blockbuster. Incluindo filmar (quase) exclusivamente em ambientes aquáticos. Não sou grande conhecedor da parte da produção, mas já li bastante sobre o assunto para perceber que isto é uma receita para o desastre. E foi o que aconteceu. São inúmeras as histórias dos problemas decorrentes de filmar neste tipo de ambientes. É preciso ver estes filmes mais antigos para perceber porque é que um estúdio hoje em dia gasta 100 ou 200 milhões de dólares numa produção. É que na altura gastava essa quantia (e foi o caso do Waterworld) e ficava à espera para ver se o público cobria o gasto baseado no feeling que seria um blockbuster. Era um jogo. Às vezes funcionava, outras vezes não, como foi o caso. E ia levando o estúdio à falência. O que os estúdios aprenderam com estes “erros” é que podiam retirar o risco da equação. Se voltassem sempre às mesmas temáticas, se apostassem no que os fãs querem ver, se fizessem uns estudos de mercados e nuns pré-releases privados para limar as arestas, e filmassem em estúdio com um fundo verde de fundo, os estúdios praticamente não teriam risco. E foi o que aconteceu. Por isso é que estamos neste loop de blockbusters que parecem todos iguais, que têm a mesma história e que parecem assentar todos na mesma estrutura. Ninguém vai arriscar gastar 200 ou 300 milhões de dólares e esperar que o feeling esteja certo. Tem de estar certo. Tem de ser um produto vendável e financeiramente positivo. Daí que os filmes mais recentes parecerem não ter “alma”. É porque não têm mesmo. São produtos multimédia de grande consumo. Estão na mesma classe dos electrodomésticos. Bem, neste caso é na classe de entretenimento. É mais um lançamento de um novo parque de diversões da Disney. Aquilo dificilmente falha. Não é coincidência que este Waterworld tenha estreado ao mesmo tempo dois ou três parques de diversão com a mesma temática pela Universal Studios. Mas isso é outra história.
Para além de ter durante muito tempo a etiqueta do filme mais caro de sempre, também teve a infeliz marca do maior flop financeiro de sempre. Terá sido porque a história era demasiado à frente do seu tempo? Não sei dizer. Mas em 1995, vir falar de alterações climáticas extremas, derretimento das calotas polares e subida do nível dos mares é capaz de ter sido um dos factores. Waterworld, de Kevin Reynolds, é quase premonitório. Num futuro distante, as alterações climáticas fazem com que a subida do nível do mares cubra toda a Terra de água. Na senda dos clássicos filmes pós-apocalípticos, a humanidade sobrevive mas altera-se radicalmente. Há pequenas comunidades a viver em atóis artificiais e há piratas que os aterrorizam. Pelo meio há o também clássico anti-herói que não se enquadra nas categorias anteriores. O motor de todo o filme é a procura dum mítico sítio com terra firme. O mapa para esse local está tatuado nas costas de uma miudinha, que é perseguida pelos piratas. E assim o anti-herói vai lentamente envolver-se no conflito. A premissa até é boa e a história até está bem esbugalhada; o problema é terem querido transformar um filme de ficção cientifica num blockbuster de acção e explosões. Os grandes estúdios não conseguem desligar-se do típico guião de acção e do bom contra o mau. E assim, simplesmente, Waterworld dissolve toda e qualquer introspecção sobre a temática ecológica e reduz toda a história a uma perseguição do mau ao bom e em que o bom (Kevin Costner), no último segundo, derrota o mau (Dennis Hopper) e fica com a namorada (Jeanne Tripplehorn) no final. A coisa perdeu-se de tal forma que no final nem é uma coisa nem outra. Por isso mesmo, apesar de ter alguns bons pormenores, Waterworld acaba por ser apenas mediano a descambar para o fracote. É pena porque tinha aqui material para um bom filmito. Este é um dos casos em que considero que deveriam fazer um remake○○○