Este Suspiria de Dario Argento é um filme que já queria ver há muito tempo. Desde o tempo em que “vivia” em video clubes que Suspiria era um filme no topo da minha lista de filmes obrigatórios para ver. Muito cedo me “especializei” nos filmes de terror porque aliavam o “salto” inesperado na cadeira com a magia do cinema que eram os efeitos especiais. Naquela altura de teenager desmiolado não haviam muitos blockbusters de “acção e efeitos” daí que essa lacuna era preenchida essencialmente com os filmes de terror. Como em tudo na vida, havia os bons e os maus, e no caso específico do terror, que é muito mais polarizado em termos de qualidade, existiam os péssimos e os óptimos filmes. Dentro dos óptimos filmes de terror, há uma classe muito específica que são aqueles poucos que ficam para a história. Pode parecer estranho dizer isto, mas desde muito cedo percebi que os filmes de terror estão numa classe à parte dos restantes. Logo à partida porque não são coisas agradáveis de ver. Sejam do tipo sobrenatural, slasher ou gore, este filmes não são muito apelativos. Quer dizer, são apelativos, mas é a um nível visceral, muito primitivo e quase instintivo. É como parar para ver um acidente. Imagino mais ou menos o que leva as outras pessoas a meterem-se numa sala de cinema para ver coisas horrendas, mas no meu caso era 20% excitação primitiva, 80% movie magic, que é como quem diz, queria ver como faziam os efeitos especiais, como é que aquilo funciona, como é que se escondia a parafernália técnica para as cenas parecerem reais. Bem… acho que estou a divagar novamente.
Voltando ao Suspiria. Este é um dos filmes que está sempre mencionado como filme obrigatório para qualquer fã do género de terror, e não só. É sempre considerado uma obra prima, um filme de qualidade superior, algo totalmente inovador e ao mesmo tempo aterrador. Numa reposição da RTP2, finalmente tive a oportunidade de vê-lo. Obviamente foi uma decepção, mas já era mais ou menos esperado. Tenho perfeita noção que algumas coisas funcionam no tempo e no espaço certo. Fora do “ambiente” de estreia simplesmente a coisa perde valor. É por isso que na minhas classificações tomo em conta o factor “tempo” e como ele afecta a qualidade de um filme. Sendo um filme dos anos 70, de génese “italiana” e ainda por cima de terror, já sabia que o impacto que teria em mim (na actualidade) nunca seria o mesmo se o visse quanto tinha 15 anos. E confirmou-se.
Há de facto muitos méritos em Suspiria, a começar pela história estranha e original de uma bailarina americana que vai frequentar uma reputada academia alemã de dança, apenas para descobrir que tudo é uma fachada para esconder um bando de bruxas sedentas de sangue… De certa forma, consigo recolocar-me nos anos 70 e avaliar o filme dessa perspectiva no tempo. A história, a ambiência, o uso das corres vividas (e berrantes) e os efeitos especiais comparado com outros filmes da mesma altura estão de facto numa nível diferente e superior. Tudo é muito mais polido do que era normal nos filmes de terror da época. O trabalho de câmara de Argento, por exemplo, é algo que ainda se destaca em comparação com muitas produções actuais. Isto é o positivo, mas por outro lado, aquela música hiper-irritante dos Goblin, o gore extremo típico dos “italianos” dos anos 70 e aquele sangue pastoso cor de groselha estragam tudo o que de bom o filme tem.
Jessica Harper, Joan Bennett, Stefania Casini e um dos meus gajos preferidos de todos os tempos, Udo Kier, acabam por se tornar secundários às mãos de Argento. O ênfase está tão relacionado com a tensão, a música e a estética que os actores acabam por ficar reféns dessa técnica. Para mim, foi outro ponto negativo. Se tivesse visto Suspiria no tempo certo, muito provavelmente teria outra opinião, mas as coisas são o que são. Ainda assim é um filme que recomendaria, mas apenas para críticos e verdadeiros amantes de cinema. ●●●○