Em alguns restaurante finos costuma-se usar um sorbet de limão para limpar o palato entre pratos. Eu uso um método relativamente parecido com os filmes. Após muito tempo a “comer” bolos feitos industrialmente, cheios de açúcares artificias que são os blockbusters actuais, limpo o meu palato cerebral com uma produção mais pequena e muito mais adstringente. Neste caso, o meu sorbet teve sabores nórdicos e artísticos, resultantes duma imensa co-produção europeia (Suécia, Alemanha, França, Dinamarca).
The Square conta a história do curador-chefe de um museu de arte contemporânea (Claes Bang), que passa da monotonia típica dos meios fechados e elitistas para o caos “normal” e mundano, depois de se envolver numa série de peripécias com consequências imprevisíveis: é assaltado e tenta recuperar os seus bens de uma forma pouco ortodoxa; mete-se com uma jornalista estrangeira (Elisabeth Moss) e tem sexo casual; uma campanha de publicidade polémica do seu museu torna-se viral sem o seu consentimento. Pelo meio há também uma actuação inesquecível de um orangotango humano.
Começou muito bem, mas acabou mal e por isso não foi um bom filme para mim. Quando começou a interessar, apareceram os créditos e o filme termina. É um final para Ruben Östlund levar um prémio de Cannes, se é que me entendem. Admito que estou “preso” ao modelo narrativo tradicional em que uma história tem principio, meio e fim. Daí que não reaja muito bem a filmes que acabam repentinamente sem finalizar o filme… e me deixem a pensar. Obrigado, mas não preciso. Eu já penso demasiado em desmaiadas coisas. Fico sempre com aquela sensação de quando estou a ver uma série e aparece a mensagem “to be continued” e o episódio só termina na próxima semana. Neste caso… não há mais episódio. O filme termina e pronto… Um gajo que o termine mentalmente, porque nada do que foi desenvolvido até ali irá ter um terminus. Tenho pena. Estava a gostar do filme.
Se bem que tenha momentos em que parece que se vai tornar numa comédia (pelo absurdo que é por vezes a arte moderna), o tom normalmente é sério e sempre virado para a crítica satírica e social. Aliás, todo o filme é uma enorme e acutilante crítica ao meio artístico contemporâneo. No entanto, nunca é demasiado profundo. A única altura em que o “corte” foi mesmo fundo tem que ver com Oleg, o orangotango humano (um brilhante Terry Notary). Não vou “abrir o jogo” para não estragar o efeito, pois o melhor é mesmo ver e apreciar. Eu fiquei com borboletas no estômago. Apesar de ser um interlúdio na história central é definitivamente “a” cena central do filme e o seu elemento mais marcante.
O feeling final é o mesmo de ver uma exposição de arte contemporânea. Um gajo questiona-se porque é que “aquilo” está ali no museu, se aquilo será arte e porque não outra coisa qualquer, não tem respostas, esquece aquilo e… limpo o palato, volta para a sua vida normal para “comer” bolos feitos industrialmente, cheios de açúcares artificias. Depois do bom início, esperava mais deste The Square, até porque, como na minha vida profissional tenho algum contacto com museus e tudo aquilo me pareceu muito fidedigno, dejá vu e familiar, estava a gostar… mas infelizmente o filme acabou de repente…  ●●○○