Apesar de todas as polémicas recentes, continuo a ser um apreciador dos trabalhos de Lars Von Trier. As borboletas entram em histeria no meu estômago antes de ver um “Von Trier“, mas mesmo assim não resisto a ver. É um daqueles prazeres obscuros que é mais forte que eu. Quando li que o Lars ia fazer um filme sobre um psicopata, entrar dentro da sua mente e mostrar o crescimento de um assassino em série, pensei para mim: “Bem é melhor ir reforçar o meu stock de protector gástrico. Isto vai ser dureza…”. Fui então ver The House That Jack Built, mas estranhamente, não aconteceu nada disso. Até é um filme relativamente “mole” (vindo de quem vem)… apesar de continuar a ser um filme “difícil” de ver…
É mais uma belíssima composição visual com fantásticos diálogos. Excelente realização como sempre, com actores de outro nível como o grande Matt Dillon, o grande Bruno Ganz e a grande Uma Thurman, entre tantos outros. Tudo muito bom e não me desiludiu nada. Mas o que mais estranhei foi ser um filme do Lars Von Trier. Por outro lado (e posso estar a imaginar coisas) tudo me pareceu extremamente críptico e cheio de segundos significados.
Após as recentes polémicas, parece que Lars Von Trier está a dar sinais exteriores. Às acusações constantes de misógino, ele arranjou uma solução óbvia: um serial killer à “maneira clássica de Hollywood“. Pode parecer contraditório, mas quem o vai criticar por isso, quando o cinema moderno está hiper-povoado de serial killers que perseguem criancinhas e mulheres indefesas? Quem o criticasse pela escolha, teria de “enterrar” milhares de slashers e filmes de culto dos mais prestigiados realizadores que ao longo dos anos levaram milhões de pessoas às salas de cinema. Esta escolha por um serial killer não me parece nada inocente. Depois há, aparentemente, uma mensagem “interna”. Parece que está a criar um novo manifesto, mas desta vez anti-Dogma95. Parece-me que ou quer acabar, ou quer questionar o seu próprio manifesto. Ou também pode-se dar o caso de estar a ficar sem financiamento e a tentar piscar o olho ao pessoal do dinheiro e dizer que também consegue fazer uns filmes mais ou menos “normais” em que o público não saia a correr deprimido ou a vomitar da sala de cinema. A inclusão constante de Fame de David Bowie pode ser a maior pista disto mesmo (o manifesto supostamente não permitia a inclusão de músicas na pós-produção), mas os efeitos especiais no final e uma série de outros pormenores indiciam que Von Trier se chateou com o grupo que ele próprio ajudou a criar. Ou então, lá está, como dizem os americanos, “money talks, bullshit walks”. Não sei. Sinceramente, acho que o problema não é dinheiro. Acho que o problema é o carácter redutor do próprio manifesto e Von Trier já anda a lutar com ele há muitos anos. Parece-me é que decidiu agora dar-lhe a machadada final. Mas isto já são questões laterais…
Não sei muito bem porquê, mas sempre gostei quando os realizadores incorporam stock-footage nos filmes. Isso acontece muito por aqui. Mas há uma parte no final em que o stock-footage é de outros filmes do Lars Von Trier como Europa, Breaking the Waves, Dogville e outros. Apesar de ser mais uma das reflexões internas do Jack sobre a arquitetura e a arte, para mim soou-me a outra coisa. Vendo bem, todo filme é tratado como uma nova e estranha versão da Divina Comédia. A presença de Verge (Virgílio) não é coincidência. Jack comete os crimes e comenta-os com Verge que contra-argumenta ao mesmo tempo que lentamente o encaminha para o Inferno.
Estranhamente fiquei com a ideia de que este Jack é de alguma forma o próprio Lars Von Trier. Ele fez o seu próprio caminho de crimes (os filmes) e agora dirige-se para um Inferno de não-criação onde já não é mais possível criar sem entrar pelo circuito comercial, simbolizado pela recorrente Fame do David Bowie… Não sei… Se calhar estou a ver coisas onde elas não existem e a tirar significados que… Bem, acho que estou a divagar novamente. E demais.
Em relação a The House That Jack Built, a única coisa que posso dizer é que gostei sem ficar deslumbrado. Até gosto deste tom negro, que para além de não ser tão avassalador como seria de esperar, até tem uma qualidade mais refinada, mais polida. Em uma ou outra situação, entra até num tom irónico, quase cómico, o que diga-se, foi uma coisa estranhíssima. Para além de dores de barriga e desconforto, nunca na minha vida pensei esboçar um mini-sorriso a ver um filme do Von Trier.
Só há duas formas de apreciar os trabalhos do Lars: ou se gosta ou se detesta. Não há meio termo. Estou há muitos anos no primeiro grupo. The House That Jack Built, nem é dos meus filmes preferidos, mas veio cimentar – mais uma vez – Lars Von Trier como um dos melhores realizadores das últimas décadas. Muitíssimo recomendado. ●●●●○

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