Paul W.S. Anderson volta a dirigir Milla Jovovich e Iain Glen num novo Resident Evil, que apesar das filmagens totalmente epiléticas e quase impossíveis de ver, é exactamente igual aos outros, só que um bocado pior (sim, é possível), porque toda a gente envolvida no filme já está tão enjoada de fazer sempre a mesma coisa, que até transparece na fotografia… Só que como há fãs para alimentar, um gajo tem mesmo de aguentar e fazer o frete de industrialmente conceber mais produto para consumo… Felizmente, esta “nova” entrega chama-se The Final Chapter e espero mesmo que seja o “capítulo final”, porque já chega. Acho que já não aguento mais. Que seca. Que coisa mais previsível. Que tédio. Mais valia pegarem no segundo ou terceiro filme e mudarem-lhe o nome e apresentarem como “novo”. Ninguém ia notar a diferença e não…
Teoricamente já tinha desistido no segundo filme, que é sempre o meu “período de dúvida” para este tipo de filmes. “Período de dúvida”, quer dizer que dou sempre o benefício da dúvida à sequela. Isto acontece porque o primeiro filme pode ser mau (como é o caso), mas a sequela pode corrigir alguns erros originais e até dar um bom filme, ou pelo menos algo mentalmente aceitável. Nunca se sabe.
E isto leva-se ao tema principal deste Resident Evil: The Final Chapter, que é: “porque é que eu vejo estes filmes?” De facto, é algo que não sei bem explicar. Isto também deve acontecer com os críticos “profissionais” porque eles malham fortemente nestes filmes (e as restantes tangas de acção/super-heróis), mas estão sempre lá batidinhos a ver. Isto pode ter várias explicações, como por exemplo: estes filmes serem viciantes como o açúcar – ou a cocaína – e as pessoas depois de “iniciadas” não conseguem deixar de ver. Também se pode dar o caso de viciação cerebral naquelas luzinhas todas a piscar, o fogo-de-artifício digital e os ritmos frenéticos, como acontece com os bebés e a publicidade: aquilo não tem de fazer sentido; é só uma estimulação sensorial de luz e som… Também pode estar relacionado com questões sociais: as pessoas podem andar tão mal nas suas vidas que precisem de ver merdas a explodir e gajos a levar bastante porrada como se fosse uma espécie de libertação da pressão acumulada. Não sei. É um fenómeno que deveria ser mais profundamente estudado… Mas no meu caso particular – e também já ponderei as hipóteses anteriormente referidas – é de facto um mistério, mas que tenho tentado desvendar.
Examinado bem a situação, acho que é por três razões principais. A primeira razão parece-me que tem que ver com uma espécie de atração pelo abismo. Não é bem pelo abismo… é mais aquela sensação estranha do ter de olhar para os acidentes: um gajo já viu mil acidentes na vida, mas tem de parar para olhar; um gajo sabe que provavelmente vai ver algo que não quer ver, e até se vai arrepender mais tarde, mas é uma atracção mais forte que o normal e uma pessoa tem mesmo de olhar. Acho que é isso. É algo supra-racional que terá cientificamente uma explicação muito plausível, mas que desconheço. Terei que ler umas coisas para perceber melhor esta situação.
A segunda razão é de origem sociológica. Estou a ver o filme, mas tecnicamente estou a ver o filme “rodeado” de fãs da “série”, para tentar perceber como é que filmes tão fracos como estes, têm de facto uma legião de fãs. Acho muito estranho que haja pessoas que gostam disto. Eu sei que gostos não se discutem, mas para mim, isto é mesmo estranho. Gosto de tentar perceber porque é que as outras pessoas gostam das coisas que gostam. É uma espécie de empatia do gosto. Mas neste tipo de filmes “industriais” não consigo perceber mesmo. Para mim, é uma incógnita como é que o quinto ou sexto Resident Evil continua a levar pessoas aos cinemas. Não entendo. E às vezes vejo estes filmes (que sei à partida que são uma seca e particularmente maus) apenas para tentar entender como é que ainda são feitos, mas pior ainda, como é que têm audiência. Estou a ver o filme, mas estou mais a pensar em gostos estereotipados, consumo de massas, trends, marketing subliminar e a fazer os meus próprios “estudos de mercado”, do que propriamente a “ver” o produto, perdão, o filme…
A terceira razão tem a ver com uma esperada previsibilidade. Eu já sei que um “produto” deste género vai percorrer os clichés institucionais do filme de acção/horror. Mas fico sempre na dúvida: será que vai ser mesmo aquela coisa típica para entreter cérebros de pipoca, com os jump-scares estrategicamente colocados no silêncio, as punch-lines copiadas doutros filmes e o twist obrigatório (até o twist já se tornou um cliché…) no final? Ou será que me vão surpreender enveredando por outro caminho que não estava à espera? Em 99% dos casos não falha: é sempre a mesma coisa. Lá está, em equipa vencedora não se mexe, e se vende pipocas… No final, lá acabo por ficar decepcionado (pouco, porque à partida já sei que vou ficar decepcionado), mas não surpreendido e a perguntar para mim próprio: “porque é que eu vejo estes filmes?” E lá volto a pensar no assunto e a dizer a mim próprio: “Já chega! Este é o mesmo último”. Provavelmente, irei objectivamente recusar-me a ver mais algum Resident Evil que venha a existir, mas aquele piscar de olho, junto com um final em aberto (como de costume…) deixa-me algumas borboletas no estômago… Pode ser apenas uma ameaça velada… mas também termina a (longa) história… voltando ao início, onde tudo começou… O meu cérebro acabou de explodir com tanta previsibilidade…
Ah! Esqueci-me de mencionar a palavra mágica… zombie! Detesto ser desmancha-prazeres, mas curiosamente há poucos zombies; coitados, têm muito pouco tempo de antena hoje em dia, mesmo num filme de zombies; há sim, uns monstros feitos em computador, mas aparecem isolados, só para os jump-scares da praxe e normalmente em cenas onde está tão escuro que nem se percebe muito bem o que são… Uma bolinha de classificação só mesmo como forma de agradecimento por ser o último… Espero eu… ●○○○○