Depois de ver este The Wolf of Wall Street fiquei na dúvida. Era um filme sobre Wall Street no mundo da droga e do sexo ou um filme sobre sexo e droga no mundo de Wall Street? Não percebi bem. Estava a brincar. Percebi perfeitamente. É sobre Jordan Belfort, um viciado em drogas e sexo que por acaso trabalha em Wall Street. E também percebi que em Wall Street tudo se movimenta a fluídos corporais e cocaína e que de vez em quando alguém trabalha a enganar/extorquir dinheiro a pacóvios ricos. The Wolf of Wall Street é mais ou menos sobre estas temáticas.
Martin Scorsese, que já tem um longo historial de filmes sobre mafiosos, drogas e outros negócios ilícitos, está portanto completamente à vontade para contar uma história passada em Wall Street, visto que as diferenças entre os dois meios e as pessoas envolvidas são quase imperceptíveis: pessoal muito bem vestido que gosta de jantar em sítios caros; pessoal que adora mostrar os melhores carros, casas e mulheres que o dinheiro consegue comprar; pessoal que apesar de rico tem uma linguagem que cheira pior que o pior cano de esgoto; pessoal com traços profundos de psicopatia e total falta de empatia; pessoal que adora e vive apenas com um único objectivo na vida: fazer dinheiro.
Se não fosse um “Scorcese“, The Wolf of Wall Street até seria um filme muito bom. Mas como é um “Scorcese“, pareceu-me apenas… bom. Não por que tenha algum defeito grave, mas apenas por ser exactamente um… “Scorcese“. Martin Scorsese é tão bom a filmar, que se nota que é demasiado fácil para ele fazer um filme apenas “bom”. Não há ali nenhum esforço. É como ver o Ronaldo a marcar um hat-trick às Ilhas Faroé. É fácil demais, não é verdade? O mesmo se passa com Scorcese. É fácil demais.
Para piorar ainda mais a situação, há coisas que não gostei mesmo. O filme é demasiado longo e tem cenas também excessivamente longas, especialmente aquelas em que as personagens estão sob efeito de psicotrópicos, o que diga-se, é constante. Também tem demasiada incidência no Leonardo DiCaprio, que nitidamente tem aqui um papel feito à medida para tentar sacar um Óscar ou outro prémio de prestígio.
Além destes pormenores, fiquei com a sensação que estava a ver uma versão mix de Goodfellas (do Scorcese) e Wall Street (do Stone). Alguns exemplos: DiCaprio chama aos empregados “schnooks”, que é o mesmo que Henry no Goodfellas chama a si próprio; num dos seus discursos motivadores, DiCaprio diz que “não há nada de nobre na pobreza”, que é citado directamente do Wall Street (era demasiado óbvio se dissesse “greed is good…“); a narração em off de DiCaprio e a do Ray Liotta no Goodfellas. parecem ter um tom estranhamente semelhante.
Se calhar sou eu que vejo filmes demais e depois começo a fazer ligações automáticas ou a ver padrões que não existem. Não sei. Isto acontece-me muitas vezes. Mas já tinha visto uma vez um documentário sobre o verdadeiro Jordan Belfort em que ele assumia que a inspiração para a sua atitude tinha tido origem precisamente em Gordon Gekko (Michael Douglas), do filme… Wall Street. Será tudo coincidência? Fica a dúvida…
Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey num nível estratosférico (só fiquei com pena que não tivesse mais “tempo de antena”), e alguns realizadores conhecidos como Rob Reiner e Jon Favreau em papéis secundários compoem um casting extraordinário que só se consegue reunir porque há um gajo genial a escrever argumentos chamado Terence Winter (Sopranos) e um outro gajo que dispensa apresentações de apelido Scorcese.
The Wolf of Wall Street acabou por me chatear um bocado devido às doses industriais de sexo, drogas e alucinações, mas não deixa de ser um bom filme. ●●●○○