Há coisas que nos marcam para sempre. Como por exemplo, ter um prego espetado na cabeça. Não foi assim tão literal, mas Hellraiser marcou-me profundamente. Tenho que admitir que durante algum tempo (se calhar até demasiado) fui um viciado em filmes de terror. Isso quer dizer que nos anos 80 e 90 vi praticamente tudo o que podia ver dentro do género. Procurava os filmes de terror mais marados que conseguisse encontrar, sendo que marado quer dizer gore extremo. Vi coisas inacreditáveis e até consegui ver filmes raros que ainda hoje continuam banidos ou mesmo proibidos em muitos países. Com o tempo, acabei por me cansar da temática, e hoje em dia, dificilmente vejo um filme de terror.
A razão desse vício nem tinha propriamente que ver com a temática; era tudo por causa dos efeitos especiais. Numa altura em que não existiam efeitos digitais, quando numa cena alguém tinha de perder a cabeça, tinha mesmo que se fazer um modelo igual ao actor e arrancar-lhe a cabeça. Não quer dizer que tudo tivesse de ser tão violento. Os filmes de ficção científica também sempre foram terreno fértil para efeitos e também os vi quase todos exactamente pela mesma razão. A diferença entre a ficção cientifica e o terror era a referência. Um monstro extraterrestre tem muito mais margem para dissimular os efeitos que a agressão num corpo humano. (esta conversa está a tornar-se estranha…) Resumindo: nem gostava propriamente dos filmes de terror, só queria era ver novos efeitos e tentar perceber como é que os técnicos os faziam. Por isso é que também tenho uma grande colecção de livros e revistas da especialidade. Adiante…
Um dos problemas dos filmes de terror nos anos 80 e 90 é o mesmo problema que os filmes hoje em dia têm: praticamente não tinham uma história (era quase sempre uma perseguição de um assassino/demónio/monstro ao actor principal) e/ou eram sequelas. E também partilhavam outra característica: eram dos filmes que tinham o melhor rácio de custo na produção/lucro na bilheteira. só para se ter uma ideia, Hellraiser tinha um ridículo orçamento de 1 milhão de dólares e facturou 20 milhões. Tentador, não é? Consequentemente, havia uma autêntica invasão de filmes de terror e ainda por cima potenciado pelo aparecimento do VHS nos 80’s e, mais tarde, do DVD nos 90’s. Volta e meia lá aparecia uma história original, tinha sucesso na bilheteira, e a partir daí era sempre a mesma coisa. Pior ainda no campo do gore, onde para além de não haver uma história decente, tudo se resumia a apenas tripas sobre tripas.
Raramente havia algo de novo, e nesse aspecto, Hellraiser foi completamente diferente. Por trás do sangue e das vísceras existia mesmo uma história, que por acaso até era muito boa. Cliver Barker com os seus mundos, personagens e ambientes extravagantes, sexualmente carregados, já era bem conhecido no meio. Ninguém esperava é que ele fosse realizar um filme e ainda por cima com base no seu próprio livro. Também é sobejamente conhecido o reconhecimento dos trabalhos de Barker, por parte do próprio rei do terror, Stephen King.
Hellraiser começa com um artefacto mágico antigo (um cubo?) que permite abrir um portal para uma dimensão paralela, de onde saem seres maléficos que levam o sofrimento ao extremo do prazer e da dor. O mais icónico dos quatros “monstros” que vêm dessa dimensão infernal é precisamente Pinhead, um ser com a cara retalhada e pregos espetados na cabeça. É tão fora do normal, tão distinto e com tão boas deixas, que acabou por chocar e ao mesmo tempo entrar na cultura pop. “No tears, please. It’s a waste of good suffering”…
A história por trás do sangue é boa, mas os actores são maus. Escapam o Andrew Robinson e Clare Higgins. O resto (e nem há muito mais casting) é um bocadinho a descair para o amador, para não ser mais violento…
Um destaque para os efeitos especiais. Num filme de terror/gore, os efeitos são a cereja no topo do cadáver. E num mundo pré-efeitos digitais, fazer um filme destes era um desafio enorme. Neste caso, uma produção britânica de baixo custo, os efeitos são fixes por serem tão gore e… maus. Era a velha máxima da altura: não consegues fazer bons efeitos, então choca-os…
Hellraiser é a estilização máxima do gore. É um gore clássico. Tirando a história original, objectivamente, como filme é uma nulidade, mas leva 3 estrelas, pura e simplesmente por motivos pessoais. ●●●○○