Como grande parte do pessoal da minha geração sabe, os Nirvana vieram preencher um vazio. No início dos anos 90 parecia que existia uma necessidade no ar. Sentia-se que era preciso power na música. Que era preciso regressar ao low-fi, às guitarras desafinadas e aos rifles potentes. Era preciso que alguém aparecesse em palco e partisse aquela porcaria toda. Era preciso gritar, dar uns berros, partir umas guitarras no amplificador. Era preciso rebentar… O pessoal já estava farto de cabelos com gel, fatiotas a condizer com os sapatos, coreografias bem ensaiadas e músicas pop polidas até à exaustão. O metal não era solução: tinha calças mais justas que collants, cabelos tão bem tratados e longos não era para toda a gente e, além do mais, até o metal tinha baladas… O punk, idem aspas, com a agravante que as considerações estéticas eram ainda mais gritantes e discutíveis, com a excepção das botas pretas de tropa. Era preciso algo novo, mais desleixado, mais cru, mais individual, mas ao mesmo tempo poderoso e libertador. O que apareceu foi o grunge, uma mistura de coisas novas e antigas, que não condizia com nenhum rótulo conhecido. Era um capítulo novo. O grunge parecia-se com muita coisa e com coisa nenhuma. E a primeira banda associada a esse novo estilo que ninguém percebia muito bem o que era (acho que ainda não se percebeu) foi precisamente os Nirvana. Uma banda atípica naquela altura: eram só três elementos, desgrenhados e o vocalista não era “bonito”, nem sorria para a câmara. De uma vez só, os Nirvana preencheram todos os vazios. Aquilo era poderoso, cru e, mais importante que tudo, parecia ser verdadeiro. Parecia mesmo uma daquelas bandas de garagem que toda a gente teve ou que o vizinho do lado tinha e um gajo só ia lá para assistir. Não admira que o sucesso tenha sido colossal e imediato. E é preciso relembrar que isto tudo aconteceu num mundo antigo e desconhecido de muita gente, onde ainda não existia internet, ainda se usava o vinil, cassetes (e duplos decks) e o grande hype era… o CD. Era outro mundo totalmente diferente. (Agora senti-me um verdadeiro dinossauro…)
O pessoal queria dar (e levar) umas cotoveladas, mochar um bocado e não cantarolar ao ouvido ou dançar juntinho com a namorada. Só o “dançar” já era algo que estava a mais… Mas claro que não foram só os Nirvana. Foram os Smashing Pumpkins, os Pearl Jam, os Stone Temple Pilots, os Soundgarden, os Nine Inch Nails, os Alice in Chains, os Sonic Youth, os Faith no More e tantos, tantos outros que vieram ao mesmo tempo, sendo que provavelmente muitos nem se encaixam na “categoria oficial” do grunge. Pessoalmente, sempre reconheci mais o grunge como um momento na história, do que propriamente uma “categoria” musical…
Para mim, como para milhões de outros, os Nirvana apareceram exactamente na altura certa. O que lia naquelas letras era mesmo aquilo que sentia e, mais importante, era mesmo aquilo que queria dizer. Foi estranho. Foi uma ligação global instantânea. Ainda hoje, volta e meia, naquelas ocasiões especiais, lá pego no velho CD e dou por mim a ouvir Nirvana. Vai ficar aqui para sempre.
Por causa disto tudo o que enumerei, quando ouvi dizer que ia sair um documentário sobre os Nirvana, fiquei entusiasmado. Gosto muito da música deles, mas dos elementos da banda só sei os nomes e pouco mais.
Cobain: Montage of Heck é uma ode aos Nirvana, embora esteja excessivamente centrado no Kurt, o que não acho nada criticável, pois foi sempre a face mais visível (e visada) da já mítica banda. E, pensando bem, qual é a banda em que o vocalista não é o elemento principal?
Para quem é fã dos Nirvana, muito provavelmente, este documentário é quase um estado de… nirvana. Tem tudo. Tem filmagens desde o nascimento até à morte do Kurt, animações, diagramas, desenhos e depoimentos vários, num dos trabalhos de montagem mais épicos que já vi.
Por outro lado, para quem, como eu, é um grande fã da música dos Nirvana, acaba por ser um bocado decepcionante. Mas também já estou habituado a esta aproximação. Obviamente, não acredito em metade do que é relatado porque simplesmente sei que cada participante ou interveniente na vida do Kurt Cobain vai ter uma opinião diferente, se não mesmo contrária ao que aqui aparece. Não me parece que alguém consiga resumir e mostrar verdadeiramente a “história completa”. Nem a própria pessoa visada, quase de certeza teria a capacidade de mostrar a história verdadeira. Não sei se a história foi semelhante ao que aparece no documentário, mas aceito a lógica do guião.
Se se considerar a parte mais técnica do documentário (guião, realização, montagem, fotografia), este Cobain: Montage of Heck é um brilhante documentário, muito provavelmente um dos melhores. Aproveitando o mote do título: “montage of heck” é um documentário com uma “montagem do caraças”. Brilhante mesmo. Só poderia ser melhor se estivesse mais virado para o lado da música do que para a parte pessoal, mas compreendo a inclinação…
O documentário não sei se ficará para a história. É provável que fique. Mas tenho uma certeza: os Nirvana já ficaram. Disso não tenho dúvida. Porque sei que daqui a 20, 30 ou 50 anos, um teenager do futuro vai abrir um cd (ou o suporte que se usar nessa altura) do Nevermind e quando ouvir aqueles primeiros acordes do Smells Like Teen Spirit vai-lhe dar uma vontade estranha de vestir camisas de flanela, abanar o capacete e de se atirar para cima de outras pessoas… ●●●●○

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