Classificar Under the Skin como um filme de ficção científica que envolve extraterrestres é demasiado redutor. Aliás, acho que é quase impossível classificar Under the Skin, pois é o filme mais marado que vi nos últimos anos. É essa a palavra mais correcta: marado. Mas marado, no bom sentido.
É como se Kubrick, Malick e Cronenberg se tivessem fundido numa única entidade e realizassem um filme através de um criatura de luz negra extraterrestre… ok… excedi-me um pouco.
Under the Skin é único, esotérico, místico, assustador, inspirador, estranho e diferente de tudo o que já vi, e dificilmente se esquece tão cedo.É tudo o que acho que um filme deve ser. Especialmente, que fique gravado na memória de longa duração.
Em muitas alturas é uma obra de arte cinematográfica, quase a roçar o conceptual. Portanto prevejo que qualquer crítico profissional lhe dê valor máximo enquanto que o público “normal” o considere uma patetice.
Acho que ser demasiado conceptual é a única falha do filme. Por vezes o ritmo do filme quebra. A continuidade da história, especialmente, sofre imenso com o excesso de protagonismo das imagens. E já agora, também com as longas ausências de falas. Mas não só. Há uma clivagem imensa entre as imagens conceptualmente geniais e o estilo quase amador das restantes filmagens, que segundo li foram totalmente feitas sem recurso a guião e sem actores profissionais. São pessoas normais que aparecem ali e nem sabem que estavam a entrar num filme.
Quando a fêmea atrai homens para o interior da sua armadilha negra (e viscosa) parecia que estava a ver uma dimensão alternativa da realidade. É tudo tão minimal e polido que é simplesmente espectacular. Mas quando a fêmea anda a deambular de carrinha branca (?) pela cidade à procura de homens, parece que estava a ver um documentário de rua. Esta inconsistência visual, para mim, é o único pormenor negativo que posso apontar. Tudo o resto é puramente genial. Começando pela Scarlett Johansson, que está tão estranha, tão diferente e ao mesmo tempo, tão normal, que nem parece a mesma, e acabando numa banda sonora original que passados 8 dias ainda faz tabela nos meus neurónios. Tem qualquer coisa de primordial que fica gravado no cérebro.
As cenas escuras do interior da armadilha de homens (?) e a cena da pele no final é puro génio cinematográfico e do melhor que já vi. Não conhecia Jonathan Glazer, mas quando fiz uma pesquisa rápida e percebi que tinha sido o realizador do vídeoclip Karma Police dos Radiohead, tudo fez sentido. Jonathan Glazer é um realizador para ter debaixo de olho e estar atento ao próximo filme. Pode ser mais uma obra de arte.
Under The Skin é vagamente inspirado num livro de Michel Faber sobre extraterrestres que vêm para a Terra em busca de comida. Nunca li o livro, mas pelo que percebi, o filme nada tem a ver com livro. É mesmo muito vagamente inspirado. Mas Under the Skin não é um filme para comparar, é um filme para admirar. Não é um filme com respostas, é um filme que deixa perguntas no ar: o que é ser humano, afinal? É a capa estética que temos por fora ou algo negro inexplicável no nosso interior? Podemos aprender a ser humanos ou já nascemos assim? Para qualquer fã da ficção científica, mas especialmente para qualquer fã de cinema, Under the Skin é um filme obrigatório. ●●●●○

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