Quando se cria um filme de culto como Taxi Driver, o que é que se faz a seguir? A resposta de Martin Scorsese foi um musical extravagante chamado New York, New York. Saiu (quase) perfeito.
New York, New York (1977) é um filme de 5 estrelas, e para mim, um caso de estudo. Se este filme fosse uma das big bands retratadas no filme, seria uma banda excepcional, extremamente afinada, com um ritmo que obriga a perna a saltitar como um reflexo involuntário, que tem um saxofonista irascível mas genial, uma cantora tão boa que é inacreditável, mas em que o maestro estraga tudo no final; ele até concebeu a peça toda e conduziu-a de forma irrepreensível durante a maior parte do tempo, mas perto do final começou a dispersar-se e ao que parece estava apressado para ir a algum lado e de repente termina com a música. É uma pena. Não sei o que se passou com Scorcese neste filme. Criou um filme genial, mas depois vandalizou-o. No mínimo, é estranho.
New York, New York conta a história do romance(?) conturbado de Jimmy Doyle (Robert De Niro), um saxofonista que tem tanto de naturalmente genial como de alucinado, e Francine Evans (Liza Minnelli) uma cantora que procura reconhecimento para o seu enorme talento. Tudo isto se passa logo a seguir ao final da II Grande Guerra. Isto dá o mote imediato para a euforia que reina durante todo o filme. A guerra tinha acabado, os soldados tinham voltado a casa (Jimmy supostamente é um deles – ou será apenas uma manobra de engate?) e o que toda a gente parecia querer naquele momento era expulsar a euforia da vitória, deixar para trás o negrume da guerra e abraçar tudo o que de bom a vida tem para oferecer.
É assim que começa o épico New york, New York. Jimmy tenta – mas não consegue – seduzir Francine no meio do frenesim duma festa gigante, em que as emoções estão à flor da pele e a excitação é tão grande que tudo se torna tenso.
Pelo desenrolar da história, pensei que o filme ia retratar as origens da música New York, New York. Sempre pensei que a música pertencia ao Frank Sinatra e que era muito mais antiga que o filme.Fui pesquisar e para minha grande surpresa percebi que a música é um original da banda sonora do filme. Melhor que isto é impossível. Criar um ícone planetário, reconhecido em todo o mundo, não é para todos. Só por este pormenor, o filme receberia as 5 estrelas. Mas tudo o resto também é perfeito. Ou melhor dizendo, quase perfeito.
Normalmente os musicais costumam ser melhores que os outros filmes. Não sei porque é que isso acontece, mas é verdade. Só pode ser a atracção subconsciente da música. Scorsese foi extremamente subtil ao transformar um musical num filme sobre músicos e sobre música. Mas já não foi nada subtil no tom musical. O filme quase que me obrigou a mexer-me. Os ritmos frenéticos do jazz, os solistas, os solos possantes. Senti a música quase fisicamente. Muito bom.
Em termos de actores, acho difícil que se volte a reunir uma dupla tão boa como esta. Liza Minneli tem uma performance excepcional. Durante todo o filme é brilhante, mas bastava ter aparecido perto do final para cantar New York, New York para receber todos os melhores elogios. A força, a emoção, o poder são tão grandes naquela última actuação, que aquilo deixa de ser cinema para ser algo totalmente real. Deu-me arrepios na espinha e emocionou-me. Tocou-me em qualquer coisa cá dentro que não se consegue explicar. Não há palavras.
Robert De Niro parece uma mistura de Travis Bickle, do Taxi Driver com James Conway, do Goodfellas. É uma grande performance, mas sinceramente dá um tom tão amargo e tão desconcertante ao filme que quase o estraga. Não sei se a persongaem era para ser mesmo assim ou se De Niro a contruiu, mas o certo é que Jimmy Doyle é uma das personagens mais inquetantes, arreliadoras e psicóticas que já vi. É o tipo de gajo que nunca podemos ter por perto, porque vai arranjar problemas em qualquer sítio. Na gíria diz-se que é um gajo que gosta de armar estrilho. É um guna. Mas um guna genial quando pega no saxofone. É o tipo de homem que bate na mulher grávida, que pede que o matem por ela não aceder a um pedido de casamento repentino, por exemplo. Um verdadeiro pulha que só merece solidão…
Um dos grandes destaques vai também para a produção, para os cenários e a para a fotografia. É tudo do melhor e um manual de como fazer as coisas perfeitamente. A inclusão daqueles sets artificiais e o uso da luz, levou-me imediatamente para as grandes produções musicais dos anos 40 e 50. Criam uma envolvência que obriga uma pessoa a mergulhar naquela realidade.
Depois entra a parte estranha. Pensei mesmo que este era um daqueles filmes que têm qualquer coisa mais, que se tornam uma referência, um dos raros filmes de 6 estrelas. Desde o início que se nota que é um filme muito acima da média. Mas perto do final do filme, algo de estranho se passou. Durante todo o filme (que é enorme), Scorsese faz uma apologia dos clubes noturnos, dos grandes musicais americanos e da própria música americana, mesmo mostrando o seu lado mais negro. Mas perto do final, inclui uma cena que parece totalmente desajustada do restante. Mostra Francine como empregada de um cinema, numa espécie de sonho em que imagina que tudo lhe corre pelo melhor, repleta de diamantes e em que culmina a fazer um musical glamoroso chamado “Happy Endings”. Afinal ela acorda e percebe que é tudo só um sonho. Quando se vê novamente confrontada com o início do sonho, ela desiste e foge da situação.
Scorsese nitidamente diz-me que está contra estes finais felizes, que eles não acontecem na vida real, que a vida é muito mais dura e injusta, que glamour é uma criação do cinema. Parece que está contra, não só os finais felizes (e o filme não tem um final feliz) como também está contra o glamour, a perfeição, os sorrisos falsos e os brilhos dos antigos filmes. Pode não ter sido a intenção, mas é a sensação com que fiquei. Parece que Scorsese tinha umas contas a ajustar com aquele tipo de cinema e teve de arranjar uma forma de o fazer à força. Um filme é objectivamente é uma opinião muito pessoal e não tenha nada contra isso. Mas neste caso, parece que viu que o filme estava para acabar e não ia ter oportunidade de encaixar aquela cena noutro sítio. Pareceu forçado. Fez mal, porque acho que diminui imensamente o filme ao cortar o ritmo. Para piorar ainda mais, o filme acaba rápido demais. Com aquela situação do sonho dos “Happy Endings”, a personagem de De Niro desaparece do filme durante imenso tempo. Regressa praticamente só para ver Francice conseguir tudo o se desejava (ironicamente, o tal “Happy Ending” que ela rejeita na espécie de sonho), tentar um reconciliação (falhada) e para sair de cena “de pés”, tal como entrou. É desapontante de tão incoerente.
Depois de ver um filme que é uma autêntica montanha-russa de emoções, que passa da comédia para o drama mais profundo, que tem performances artísticas e músicas inesquecíveis, Scorsese vai-se embora, a encolher os ombros, como se não quisesse saber. Não entendo. É como se Pollock terminasse uma das suas pinturas, mas no canto do quadro escrevesse a letras vermelhas que não é grande fã do abstracto. Não compreendo. Acho que aconteceu qualquer coisa nos últimos tempos de filmagem…
Mas voltando ao lado positivo. New York, New York tem uma história excepcionalmente bem contada, actores no pico de forma, com performances do outro mundo, momentos de cinema de puro génio, e uma das melhores músicas de sempre foi composta de propósito para a banda sonora. Há alguém que nunca tenha ouvido a New York, New York? Mesmo com as falhas que tem, New York, New York é um filme que merece ser visto, revisto e estar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Um dos grandes filmes que já vi. ●●●●●

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