Grande parte dos louros deste(s) filme(s) vão para o história de Stephen King. O grande segredo é a sua simplicidade. Carrie White é uma rapariga controlada pela mãe opressiva, tresloucada e hiper-religiosa que a tenta manter quase aprisionada em casa e afastada da realidade. Sujeita a castigos e constantemente gozada pelos colegas na escola, Carrie começa a desenvolver estranhos poderes, identificados como telecinesia: manipular objectos com o poder da mente.
Isto mexe com tudo o que é mais primordial: a tentativa de pertencer ao grupo, a repulsa social, a humilhação pública, o querer ter um poder superior que nos ajude a resolver os problemas. Este tratamento “simples” da história dá azo a interpretações dúbias. Será que Carrie é sobre uma miúda com poderes ou é uma metáfora sobre a emancipação adolescente? Será sobre como encaixar na sociedade ou castigá-la por ser tão diferente e má? Mexe-nos com o subconsciente e confronta-nos com situações pelas quais toda a gente já passou na adolescência. É um tema muito recorrente nas histórias de King, mas que aqui é especialmente muito bem tratado.
Carrie (1976) começa e termina muitíssimo bem. A sequência inicial dos chuverios em que Carrie tem pela primeira vez a menstruação é simplesmente de génio. A cena final, irritante de tão lenta e tensa, é novamente genial. Brian De Palma construiu aqui um autêntico manual do realizador, repleto de excelentes e icónicas cenas e um estudo sobre como fazer um magnifico trabalho de câmara. Se me dissessem que Alfred Hitchcock tinha sido o realizador eu não teria acho estranho. Melhor elogio é impossível.
Em termos de actores, destaque absoluto para Piper Laurie como a mãe hiper-protectora e totalmente maluca e para Sissy Spacek que será eternamente Carrie White. O filme nem sequer necessita de grandes efeitos especiais: a expressão facial de Spacek faz todo o serviço ao conseguir passar de totalmente angélico para totalmente demoníaco. A actuação é tão boa que foram as duas nomeadas para Óscares. Num filme de terror, género considerado menor, é de realçar. Conta ainda com o suporte e as boas prestações de John Travolta e Nancy Allen.
O grande problema de Carrie é que está extremamente datado. É um daqueles filmes que foi autenticamente atropelado pelo tempo. Visto agora, é quase impossível uma pessoa distraír-se das fatiotas terríveis e daqueles penteados absurdos dos anos 70. E não só: aqueles sonzinhos agudos à Psycho… hoje em dia, parecem uma paródia. Mas neste caso, acho que é preciso contextualizar. Eu imagino o choque de quem viu o filme na altura certa. Deve ter sido um verdadeiro terror. Um filme incontornável do género e do cinema em geral. Vale sempre a pena ver. ●●●●○
Em 2014, chegou o remake de Carrie, agora com Chloë Grace Moretz e Julianne Moore nos principais papéis. Julianne Moore é sempre uma excelente atriz onde quer que entre e aqui não é excepção. Mas é o único ponto positivo a destacar, pois esta nova versão não chega aos calcanhares do primeiro. Não porque o filme seja mau, mas porque a história é a mesma. Até o argumento é da mesma pessoa que o original! O que é que este filme pode acrescentar de novo ou melhorar a história original? Acho que a resposta é nada. Acima de tudo, é um filme destinado às pessoas que nunca tiveram oportunidade de ver o original. Só assim se explica o remake. Por isso, este “novo” Carrie, não é um bem filme: é um facelift a um produto antigo. Compreende-se. ●●○○○

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