Os filmes que são excepcionais – os de “6 estrelas” – têm uma coisa muita boa: não é preciso revê-los para comentar. Ficam gravados na memória e isso ajuda muito quando se tem um blog de cinema.
Como estranhamente estamos a reviver (e muito) a lógica Orwelliana, acabei de rever mentalmente Animal Farm (1954), um clássico de animação, reservado a adultos. E sublinho o reservado a adultos pelo simples facto de que é impossível explicar a acção deste filme a uma criança, além de me parecer totalmente inapropriado. Bem, se calhar estou a projectar os meus traumas… Lembro-me bem dos gritos do burro Benjamin enquanto corria atrás do carro que leva o amigo Boxer para o matadouro, depois de ser vendido pelos porcos. Como é que se explica isto a uma criança sem a traumatizar? A primeira vez que o vi, tinha para aí uns 13 ou 14 anos e apesar do aspecto similar da animação, percebi rapidamente que não estava a ver um filme Disney. Além disso, obviamente, faltavam-me as bases de conhecimento político e social para entender esta fábula. Como seria de esperar, levei uma “pancada na cabeça”…
O filme baseia-se no livro de George Orwell de 1945 com o mesmo nome e é tão conhecido e está tão enraizado na cultura popular que nem vale a pena escrever mais sobre o assunto. Animal Farm é uma exposição mais ou menos dissimulada de como o ideal comunista se desmorona/desmoronou com o tempo e se torna/tornou uma ditadura tão ou mais brutal como a organização social que a precedeu.
Facto pouco conhecido (pelo menos para mim e que só descobri enquanto pesquisava sobre o filme) é que George Orwell, autor do também mundialmente conhecido “1984“, chamava-se realmente Eric Arthur Blair. Mas, como eu digo sempre, isso não interessa para nada. O que interessa é que tanto o livro como o filme são óptimos.
Gosto de simbolismos, daí que este filme seja um dos meus filmes de eleição. Há obviamente comparações directas e sobreposições das figuras históricas, como por exemplo Napoleon que é na verdade Estaline; o embriagado dono original da quinta, Jones, que é Nicolau II e Snowball que é Trotsky. Menos consensual é Old Major que tanto me parece ser Lenine como Karl Marx, mas se calhar é mesmo uma mistura dos dois. Figura também dúbia é Pilkington que parece ser uma mistura do bloco Estados Unidos/Inglaterra. Toda a gente tem as suas teorias e todos com quem comentei o filme têm ligeiras nuances sobre quem é quem e sobre o que se trata verdadeiramente Animal Farm. Há meia internet a discutir os mais ínfimos pormenores e tudo o que gira em volta dos simbolismos do filme.
De todas as comparações e simbologias desta fábula destaco especialmente quatro: Boxer, Benjamin, Mr. Whimper e o gato.
O cavalo Boxer é uma excelente representação da massa trabalhadora anónima e também uma ferramenta indispensável dos governantes e dirigentes. Infelizmente, tal como qualquer outra ferramenta, Boxer, possui as mesmas características, podendo ser bem ou mal utilizado. Assim que a sua utilidade se vê reduzida devido a um acidente de trabalho na construção do farol do regime – o moinho -, Boxer é vendido sem complacência. Parece óbvio deduzir, que independentemente do estilo de governação, a massa trabalhadora é uma massa capaz de elevar o orgulho colectivo, mas que também acaba por ser uma das responsáveis pelo crescimento desmesurado e desregrado de regimes autoritários e das suas manobras de propaganda. Ainda assim, Boxer traduz-se naquela massa humana, que apesar de discordar das ideias dos governantes devido a uma análise atenta que faz da sociedade que o rodeia, acaba por se sacrificar pessoalmente perante as necessidades do colectivo, na esperança que o seu trabalho resulte num futuro melhor para todos.
Benjamin, o burro, simboliza uma parte da massa trabalhadora, tal como Boxer. A diferença entre eles parece ser apenas uma questão de inteligência e percepção da realidade. Como quem diz, esta é aquela parte estúpida que responde sempre com um enorme sorriso e um sonoro obrigado, quando lhe oferecem umas míseras cenouras… que foi ele que pagou. Companheiro inseparável de Boxer, Benjamin é, por assim dizer, mais “curto de vistas”. Apesar de trabalhar lado a lado com Boxer e de ter a mesma capacidade de trabalho e sacrifìcio, Benjamin faz uma análise menos objectiva da sociedade (ou nem chega a fazê-la) e deixa passar em branco muitas das atrocidades do regime. Ou não quer ver o que se passa ou está desatento. Apenas no momento em que perde o seu melhor amigo é que finalmente percebe que quem o governa é afinal um inimigo interno, igual ou pior que as ameaças externas. Só perante uma situação extremamente grave e que o implica directamente, é que esta “massa trabalhadora” consegue de facto pôr de parte o cinismo com que olha para a situação e percebe que tem de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa para mudar o rumo aos acontecimentos.
Mr. Whimper, o intermediário entre animais e humanos, com o tempo foi-se tornando numa das personagens mais interessantes. Convém lembrar que o filme é de 1954 mas o livro tem data de publicação de 1945 e foi escrito ainda antes dessa data. O grande mundo corporativo dava os primeiros passos globais enquanto a sociedade cambaleava do meio de duas guerras mundiais, e em que a União Soviética ainda era, para todos os efeitos, uma Aliada, facto esse que, obviamente, dificultou a publicação do livro. Mas, analisando a continuidade das personagens no tempo para lá do representativo do livro/filme, Mr. Whimper é um dos poucos que mudou e cresceu em importância. No filme, é uma pequena personagem que lucra com os produtos que saem da quinta e lucra o suficiente para ser olhado com desconfiança pelos outros donos de quintas. O seu papel fica por aqui, mas se houvesse uma sequela do Animal Farm e as sobreposições históricas fossem continuadas, Mr. Whimper seria sem dúvida a personagem de topo no momento, representativa do aparecimento de uma nova força espelhada no comerciante obcecado pelo lucro. A semente da era actual do gigantismo corporativo global, sem fronteiras, e do capitalismo puro e duro é o Mr. Whimper! Ele rege-se apenas e só pelo dinheiro. São-lhe indiferentes os regimes polìticos, as pessoas, os papéis e as leis. Nada é tão importante quanto o dinheiro e lucro. Não importa a sua origem, desde que o destino seja o seu bolso. Extrapolando o conteúdo do filme, facilmente se pode imaginar que por muitas voltas e reviravoltas que aconteçam na “gestão” da quinta, mais cedo ou mais tarde, Mr. Whimper acabará por ser o “chairman of the board” da grande empresa que irá comprar Animal Farm. E se isso acontecesse, uma grande parte da quinta iria ser transformada numa área de belos condomínios e todos os animais estariam cobertos de impostos e burocracia. Se calhar estou a a extrapolar demais, mas como tudo é cíclico, veremos… Pode ser que um dia haja um Animal Farm 2
O Gato, o qual desconheço o nome, é talvez a única não-personagem e uma das minhas preferidas. Já vi muitas teorias que apontam em várias direcções quanto ao que o gato poderá representar. A única coisa certa é que o gato está lá. Não está presente nos grandes acontecimentos, mas acaba sempre por cruzar a acção. Não participa mas também não está excluído. Quem é este misterioso gato? Será um símbolo dos excluídos da sociedade? Um apátrida? Será um refugiado ou um exilado de outra “animal farm”? Será um nómada, já que não parece pertencer ou ter grandes relações com o colectivo? Será um daqueles anarquistas sempre vestidos de negro, a trabalhar sorrateiramente nos bastidores? Nem sequer se percebe muito bem se apoia os “bons” ou os “maus” e a certa altura até apoia os dois lados. Na minha opinião, tal como na vida real, o gato não tem uma finalidade escondida, nem sequer representa nada em especial. Apenas representa o seu papel: o de ser gato, a olhar por si, a tentar passar despercebido sem causar grande alarido e mais nada. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Num filme com tanto simbolismo, é a única personagem que se representa a si própria. Como sempre, os gatos são superiores…

Tantos anos depois da sua estreia, Animal Farm, continua a ser uma referência, quanto mais não fosse, por ser a primeira longa-metragem de animação inglesa (mas também já li que foi a segunda!), muito por culpa da força criadora e visionária do casal-autor, Joy Batchelor e John Halas. Referência ainda para Maurice Denham, que teve o trabalho hérculeo e excepcional de fazer as vozes de todos os animais.
Animal Farm não é um filme de 6 estrelas pelos atributos técnicos avançados, mas porque de certa forma parece ter sido concebido quase como um manifesto intemporal. É inegável que é na história excepcional de George Orwell que reside toda a força do filme. De uma forma estranha, Animal Farm muda conforme os olhos de quem o vê e muda à medida que o expectador vai ficando mais velho. Mais estranho ainda, é Animal Farm conseguir ser simples e complexo ao mesmo tempo.
Revi-o mais tarde e por diversas vezes, e só aí percebi alguns dos paralelismos desta fábula com a revolução comunista e consequente degeneração de um ideal que aparentava ser uma alternativa. Esta característica de sobreposição da realidade fez com que o filme ficasse infelizmente preso no tempo. No entanto, e como tudo indica, a História parece ser cíclica, o que quer dizer que Animal Farm volta a estar actual. Já se fala novamente numa nova Guerra Fria. Vamos lá a ver se ninguém se lembra de levantar “muros” ou “cortinas” outra vez…
É de referir que há diferenças entre o filme e o livro, nomeadamente no final. Não sei se foi uma tentativa de aproximação mais light para dar um final um pouco mais feliz, ou se como já li numas teorias da conspiração, a CIA comprou os direitos e usou o filme como propaganda anti-comunista… Sinceramente não sei. O que sei é que quando se pega em simbolismos políticos, a história nunca é simples…

Como curiosidade, enquanto procurava um trailer encontrei… o filme inteiro disponível no youtube. Em tempos, Animal Farm já foi difícil de se encontrar no mercado português, mas agora está por todo o lado. É uma oportunidade de ouro para (re)ver um clássico que é muito mais que um filme de animação. É uma lição de história para quem tem olhos instruídos, um exercício mental de projecção do futuro e um acto contínuo de reflexão. Como obra de cinema é simplesmente único, incomparável, intemporal, obrigatório, mas acima de tudo, genial. ●●●●● + ●