Curtis, um gajo normal, na sua vida normal, começa a ter pesadelos recorrentes e alucinações com uma estranha e gigantesca tempestade que se aproxima. Como pensa que há algo de errado consigo, procura ajuda médica. Não contente com a ajuda despersonalizada que recebe, decide construir um abrigo para tempestades no seu próprio quintal. A sua estranha atitude começa então a ameaçar a sua sanidade e a unidade da família…
Take Shelter é um thriller, dramático, tenso, muito bem feito, e por isso também muito difícil de ver. É mesmo poderoso. É filme muito bom. Tudo nele é ambíguo. Desde as primeiras imagens, ao soberbo final, e até ao próprio tema. Será sobre esquizofrenia? Paranóia? Estranhos eventos que ninguém consegue ver? É difícil de chegar a alguma conclusão. A minha teoria é de que se trata da extrapolação de um assunto bastante actual e complicado: a depressão.
O filme é de 2011, por isso, rodado mesmo em cima do descalabro financeiro que varreu a América (e o mundo). E se já não é fácil de lidar com a ansiedade normal do alucinantemente rápido mundo moderno, com o stress de ter dinheiro contado ao fim do mês para pagar contas, aguentar com a frustração de não ver os seus sonhos realizados, ver a injustiça e a ganância a prevalecerem como normalidade, a violência crescente mas cada vez mais banalizada, a futilidade do momento e se ainda por cima, a isto tudo, juntarmos uma mistura de indefinição, mudança e instabilidade política, social e económica a nível mundial, então está construído um cocktail explosivo para uma depressão profunda. Diria até mesmo, uma depressão profunda colectiva.
O Miguel Esteves Cardoso escreveu um dia que “O Amor é fodido”. É capaz de ser verdade. Mas a depressão é muito mais fodida. O amor é bom, recomenda-se e é reconhecido por toda a gente. A depressão é apenas considerada como a doença dos inúteis. Dos que não conseguem superar-se. Dos coitadinhos. Dos que se dizem azarados. Dos que têm baixa autoestima. Pior ainda: dos pessimistas.
Tal como o amor, a depressão também faz uma pessoa ver coisas que não existem. O tal copo meio vazio em vez do meio cheio. Uma tempestade que se aproxima ao longe mas que mais ninguém vê. É como uma lente escura para o mundo, em que só se consegue ver o lado negro das coisas. É ter na cabeça aquela sensação constante de catástrofe iminente. A depressão é algo que levanta mais perguntas do que dá respostas. Porque é que algumas pessoas são mais propensas que outras? É uma causa de um mundo cada vez mais assimétrico e em constante mudança ou uma consequência de maus e aleatórios acontecimentos quotidianos? Uma questão genética ou biológica? Um distúrbio mental? Não há uma resposta clara ou definitiva… e estou a divagar novamente, ainda por cima, à volta de um tema tão negro. E ninguém gosta de coisas negras, não é verdade?
Apesar de ser um valente e negro “murro no estômago”, gostei muito de Take Shelter. Está muito bem escrito e também muito bem realizado por Jeff Nichols. É um gajo para ficar debaixo de olho porque nitidamente tem muito jeito e sabe o que faz. Tem poucos mas excelentes actores como Jessica Chastain e Shea Whigham, mas todo o destaque tem de ir para a extraordinária intensidade de Michael Shannon. É que nem precisa de dizer nada. Só a expressão facial diz tudo. Brilhante desempenho. Mais um gajo a ter em atenção no futuro. Take Shelter é para ver a roer unhas na beirinha do assento e depois rever. ●●●●○

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