A Vida é um Sopro é um documentário mediano mas que acaba por ser bom devido ao entrevistado e às suas obras. E o entrevistado é nem mais nem menos do que o senhor Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou simplesmente, Oscar Niemeyer, o génio.
No mundo da arquitectura, para mim, é simplesmente o melhor. Não só pelo desenho arquitectural, mas também porque tem inerente uma filosofia de vida. Mesmo sem nunca ter visto um documentário, olhando para os edifícios e construções, percebe-se imediatamente que há ali uma linha de pensamento dirigida para a pessoa que olha e usufrui do equipamento. Isto é algo que grande parte da arquitectura dita “modernista” se esquece. Um prédio, mesmo que uma pessoa não o use, não é “só” um prédio; é uma presença na vida das pessoas; interfere com o meio envolvente; mesmo sendo imóvel, interage com a pessoa que vai a passar, mesmo que ela nem olhe para lá. E estas pequenas (ou grandes, conforme a dimensão) interferências na vida quotidiana têm um reflexo, e é esse reflexo que me parece que muitas vezes não é sequer tido em conta. E nem sequer estou a falar na construção comercial, que isso são caixotes-dormitórios para acomodar paletes de pessoas, estou a referir a intervenção arquitectónica urbana que muitas vezes é premiada e reverenciada como o supra-sumo da arquitectura e que para mim, não tendo em conta o impacto da questão social e humana, é – pegando nas palavras do mestre – simplesmente uma merda. Pode ser muito bonito, muito estético e arrojado, mas quando não “pensa” nos impactos, nas pessoas e como isso muda tudo, para mim não vale simplesmente nada. Zero.
Já vi muitas entrevistas, alguns documentários e chego à conclusão que Niemeyer é provavelmente o melhor arquitecto de sempre. E acho isso porque é uma junção de duas coisas inseparáveis: arquitectura e pessoas. Sem uma destas coisas, a outra não faz sentido. Talvez seja a sua queda ideológica para a política mais socialista que mistura tão bem as duas coisas… não sei. O que sei é que o homem concebeu das melhores obras arquitectíonicas do mundo como por exemplo a Catedral de Brasília, o Congresso Nacional do Brasil, o parque urbano de Ibirapuera, a sede da ONU ou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Arquitectura com décadas que parece saída do futuro. Mais um gajo que estava muito à frente no seu tempo.
Oscar, como gajo que é “gajo”, é “simples” e não tem papas na língua. É uma delicia vê-lo a defender o que é bom e bonito, como “a mulhér bonita, o prédio bonito” e a mandar literalmente foder o que é mau e não presta. Sem contemplações, sem merdas. Simples e directo do coração. Oscar Niemeyer, sem dúvida, um dos melhores gajos de sempre.
Como já disse, “A vida é um sopro” é documentário a cair para o fracote. Quer dizer, até me custa dizer “fracote”, mas a sensação com que fico é que o Niemeyer é tão bom, que provavelmente ninguém conseguiria fazer um documento à altura do entrevistado. Até tem alguma produção, mas pouca. É mais uma entrevista “quitada” do que propriamente um documentário. Já vi uns quantos documentários sobre arquitectura e (quase) todos cometem o mesmo erro: não mostram os interiores e os pormenores. É quase como se arquitectura fosse apenas a parte exterior da construção. É pena e é um erro. Aposto que se o Niemeyer fizesse um documentário ele mostraria os interiores e como pensou na disposição das casas de banho e porque é que nas áreas comuns usou “aquelas” cores ou “aquela” iluminação em detrimento da outra. Mas pronto, é o que há e é melhor que nada. Podia ser melhor, mas não está mal. E compreendo que a investigação e produção duma cena destas não seja fácil nem barata, portanto o Fabiano Maciel está totalmente desculpado. Pelo menos, reconheceu a genialidade do homem, fez o documentário e eu pude vê-lo, portanto, está tudo bem. Parabéns para o Fabiano. A Vida é um Sopro é muito provavelmente o último registo/entrevista do mestre, e isso, só por si, já merece destaque. Tem também comentários e participações (de arquivo) do Chico Buarque, Le Corbusier, Lúcio Costa, José Saramago e Mário Soares. Oscar Niemeyer continuou a trabalhar até ao dia 5 de dezembro de 2012, contabilizando uns já longos e profícuos 104 anos. Ou como diria o mestre, “nasceu, viveu, se fodeu”… ●●●○○

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