Five Foot Two é um documentário em torno da figura excêntrica da Lady Gaga. Vê-se bem e permite entrar no mundo da actual diva da pop, mas que se nota que está tão cansada de o ser que tenta ser outra coisa diferente… como uma simples autora e cantora. Vale pela intimidade e por se ficar a conhecer a pessoa para lá do fogo-de-artifício, das vestimentas extravagantes e das lantejoulas explosivas. Pode ser uma surpresa para muitos, mas Lady Gaga é uma moça que gosto. Para lá dos vestidos de bife e das coreografias MTV, tem um lado estranhamente rock/punk (faz-me lembrar os antigos performers polémicos e os glam rockers) que não é totalmente descartável. Tem ali um crazy eye qualquer que me atrai… É estranho. Para um gajo do rock/industrial/punk e das guitarradas intermináveis como eu, isto é algo que não consigo explicar muito bem.
O que sinto em relação aos filmes é muito parecido com o que sinto em relação à música. O hitzinho de verão, feito à medida para se ouvir bem em esplanadas ao final do dia, não entram nesta cabeça. A música romântica destinada a todos aqueles que tiveram um recente desgosto de amor, ou o grande musicol techno/DJ do momento… não…não… isso aqui não cola. Mesmo.
E apesar de ter uma aversão natural ao pop (porque normalmente é tratado como um produto de consumo e é usualmente algo falso, concebido em laboratório para satisfazer o cliente final, como quem afina o picante das batatas fritas com sabor a churrasco texano…), não desdenho imediatamente a música que vem daí. Grandes temas, muitos intemporais, são puro pop e eu “consumo-os” como toda a gente. Mas não porque têm um ritmo dançável, são divertidos ou porque toda a gente ouve e dá incessantemente na rádio. Ouço sim, porque são fixes, são boas boas músicas e porque ficam no tempo. Tento sempre seleccionar as que me parecem totalmente “verdadeiras”. No caso da Lady Gaga, sempre me pareceu que por baixo daquela sonoridade liminarmente pop, havia música verdadeira. Em certa parte, este documentário vem confirmar a minha suspeita. Por exemplo, há por lá uma versão acústica do mega-hit “Bad Romance” que é totalmente o oposto da versão pop dançável. Se aquela tivesse sido a versão original, seguramente não tinha tido a projeção e divulgação que teve… Dá que pensar.
Five Foot Two incide num período em que Lady Gaga lança um novo álbum – diferente do habitual, com muita sonoridade country e uma atitude mais adulta – e simultaneamente prepara o show no intervalo no Super Bowl, que na América é o Santo Graal da performance em palco.
O documentário de Chris Moukarbel está bem engendrado mas não é nada de especial, porque não tem muito conteúdo. É um filme feito à medida. Para lá do lado pessoal, pareceu-me mais um grito de revolta do que outra coisa. É quase um documento do culminar de carreira como entertainer para teenagers e a tentativa de dar o salto para um público adulto. Sinceramente, acho que está a conseguir, até porque já ganhou prémios com músicas “normais” e porque deu o salto para o cinema com bons resultados na crítica. (ainda me falta ver o filme…) As composições são boas (mesmo as mais pop) e a moça até canta bem. Só falta mesmo assumir o nome Stefani Germanotta para se libertar de vez do antigo ícone pop, mas acho que o nome é tão valioso que isso nunca vai acontecer. Mas quem sabe? ●●○○○

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