Não sendo muito fluente em francês, tive de pesquisar para perceber o que La Jetée queria dizer. La Jetée é aquela plataforma pública dos aeroportos em que se podia assistir às descolagens e aterragens dos aviões. No entanto, no meio das minhas pesquisas por tradutores online, percebi que o título também podia ser interpretado, foneticamente, como “là j’étais”, que pode traduzir-se mais ou menos como “eu estava lá”. Não sei qual foi a ideia de Chris Marker quando deu este título ao filme, mas a realidade é que funciona bem de qualquer das formas.
Apesar de ser uma curta-metragem a preto e branco, de apenas 28 minutos, La Jetée é um filme complexo. Quer dizer, eu digo que é um filme complexo, mas é apenas por brevíssimos segundos que podemos ver imagens em movimento. Por isso, é difícil qualificá-lo como filme. Como é apresentado apenas com recurso a fotografia estática, visualmente é mais uma novela gráfica que outra coisa. No entanto, a música, a narração e o efeito da montagem com o som, dão-lhe uma continuidade tão fluída que me parece óbvio que se está a assistir verdadeiramente a um filme.
Se a escolha estética da fotografia (em detrimento do movimento) como medium para apresentação visual pode ser considerado com uma “simplicidade”, já a história de base é bastante complexa. Algures no futuro, numa distopia em que a humanidade vive em subterrâneos para fugir às consequências letais de um mundo devastado e envenenado pela guerra nuclear, um grupo de cientistas consegue desenvolver um método de viajar no tempo. O objectivo é tentar arranjar ajuda para a questão do presente, indo tanto para o passado como para o futuro. Para isso contam com um homem, o único que consegue física e mentalmente aguentar a “viagem”. O homem tem visões de uma mulher que não conhece, e a imagem dela numa gare de aeroporto é recorrente. E é aqui que as viagens no tempo começam a dar a volta ao argumento e entram em paradoxos a que aparentemente não se pode escapar. Aliás, este parece ser o grande significado de La Jetée e a sua grande mensagem, que é sempre actual: pode-se andar para a frente ou para trás no tempo, mas não se consegue escapar ao momento presente.
Pequeno em tamanho, mas muito grande em conteúdo, é assim que eu vejo o La Jetée. Para mim, é um dos marcos incontornáveis do cinema, simplesmente porque é a expressão da máxima estilização possível. Estica todos os limites daquilo que pode ser considerado como um filme. Os actores, por exemplo, estão presentes (Hélène Chatelain, Davos Hanich e Jacques Ledoux), mas não tendo movimento acabam por funcionar quase como adereços da própria história. Por outro lado, a voz do narrador, (Jean Negroni), sendo uma presença incorpórea, acaba por ter mais presença que os outros que de facto aparecem visualmente. Pufff! O cérebro dum gajo explode quando começa pensar nestas coisas… E ainda por cima, num tão curto espaço de tempo consegue concentrar tantos e tão complexos assuntos que sempre me deu a volta à cabeça. Uma preciosidade. Totalmente obrigatório. ●●●●●